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A escória e o ouro

Dois cidadãos norte-americanos de origem árabe, pai e filho, se correspondiam por e-mail: “Querido filho, Preciso lhe pedir um favor. Gostaria que, durante as suas férias da universidade, você viesse me ajudar a revolver a terra, pois está chegando a época do plantio e precisamos preparar o terreno para a sementeira. Sei que é um trabalho muito duro, mas, no momento, só posso contar com você para me auxiliar. Espero que nos encontremos em breve. Com amor, Armed” O filho, que estudava computação, respondeu prontamente: “Querido pai, Por favor, não revolva o terreno de modo algum antes da minha chegada. Lembre-se que foi lá que eu guardei ‘aquilo’. Um abraço, Mohamed” O velho pai não entendeu nada. O que poderia ser “aquilo”? Cindo minutos depois, chegaram o xerife, o esquadrão anti-bombas, a Swat, o FBI, a CIA, a guarda nacional e os marines. Correram até o terreno e começaram a revirar a terra. Remexeram várias vezes. Especialistas coletavam mostras do terreno, e recolhiam, inclusive, algumas minhocas para averiguações posteriores. Ao final da “batida”, a terra estava toda fofinha. Quando as forças de segurança se foram, Armed recebeu um novo e-mail do filho: “Papai, acredito que, a essa altura, o terreno já deve estar bem macio. É possível que, por ora, o senhor nem sequer precise mais da minha ajuda. Assim sendo, vou para o Havaí com a minha namorada. Um beijo!” Cada desafio que nos aparece é uma oportunidade escondida. Tenha a ele a forma de preconceito, discriminação, perseguição gratuita ou hostilidade. Com leveza, paciência e bom humor podemos aproveitar melhor a vida, em lugar de nutrir ódio ou rancor. Temos sempre a chance de enxergar uma determinada circunstância como um problema ou como uma chance a ser bem aproveitada. Pode-se sempre escolher entre se sobrecarregar de preocupações ou viver bem. O bom garimpeiro sabe que o ouro está oculto sob a escória bruta. Assim como o grande pode ser encontrado no pequeno, uma situação aparentemente difícil pode conduzir a recompensas inesperadas. Amor, doçura, paciência, bondade e tolerância são os melhores instrumentos na busca das jóias escondidas sob o cascalho dos fatos desagradáveis. O ponto de equilíbrio não está fora, mas sim dentro de nós mesmos. Revolta, desânimo e o desespero não funcionam diante do ódio. A confiança e a fé, sim. A nossa paz só a perdemos se nos deixarmos levar ao sabor dos acontecimentos. Quando estamos centrados em nós mesmos, na nossa própria missão, nada pode nos distrair. Madre Teresa de Calcutá e suas religiosas continuaram atendendo aos necessitados em seu pronto-socorro improvisado, enquanto fundamentalistas cheios de ódio tentavam invadir o prédio em que estava para depredar tudo. O anjo missionário de Calcutá sequer se deu conta quando o chefe de polícia disse à turba de homens furiosos: “Se você trouxerem as suas esposas, mães e irmãs para realizarem o trabalho que esta mulher esta fazendo aí dentro, eu serei o primeiro a expulsá-la”. A multidão desmoralizada se dissipou imediatamente. As melhores respostas aos desafios da vida surgem de dentro de nós, quando preservamos a nossa tranqüilidade. O primeiro e maior desafio a vencer para a resolução de qualquer problema está na própria mente de cada um. Na contabilidade de Deus, não há prejuízo. O prejuízo só ocorre quando nos auto-limitamos. Ninguém pode perder nada que seja de fato seu. Toda “perda” ou “prejuízo” é apenas aparente. O que é nosso, por direito divino, permanece sempre conosco. Ninguém pode, por exemplo, seqüestrar a nossa dignidade ou qualquer outra qualidade que nos constitua intimamente. Corrigindo-nos a nós mesmos, tudo à nossa volta também se corrige. A felicidade não depende dos fatores exteriores, mas do modo como lidamos com eles. Quando os outros buscam criar dificuldades, o melhor é deixá-los seguir o próprio caminho, sem necessidade de disputa, discussão ou vingança. Mário Quintana dizia: “Todos esses que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão... Eu passarinho.” Diante de alguém que nos agride, o melhor é entender que se trata de uma pessoa doente, necessitada de oração e não de revide. Diante da mágoa, o melhor é esquecer completamente, uma vez que também ferimos os outros sem perceber. Diante dos próprios erros, o melhor é nos examinarmos para evitar a reincidência. Diante da doença, o melhor é iniciar e cumprir o tratamento, sem lamentação. Diante das dívidas, o melhor é o planejamento e o trabalho. Diante das dificuldades, é sempre melhor pedir forças e inspiração a Deus, poupando os outros das nossas reclamações. Quem busca agir com alegria e bondade sempre é socorrido no momento oportuno, de um modo inesperado. O problema está em nós. A solução, também. É preciso apenas garimpar.
 
Publicado na Etical.org em 18/10/2006
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