Há episódios curiosos no Caminho de Santiago. Eu estava saindo de Santo Domingo de la Calzada, "onde a galinha cantou depois de assada", em direçao a Grañon. Fica pouco antes de Redecilla del Camino, o primeiro pueblo de Castilla y Leon, onde o Caminho se torna quase infinito...
Dos meus lados esquerdo e direito, campos de cevada e de trigo. Eram quase 9 da noite. O sol começava a se pôr, mas ainda estava muito quente. Não havia niguém na estrada de cascalho. Eu ouvia somente o chacoalhar das minhas botas nas pedrinhas. O vento soprava poeira sobre mim. Minha calça cáqui, estava cinza. Uma camiseta suada e surrada, depois de caminhar por mais de 30 quilômetros, um chapeu cravejado de bótons de albergues, botas desgastadas, uma muchila de 10 quilos e um bordao, compunham a minha apresentaçao. Um peregrino típico, fora do horário habitual de caminhada e muito, muito cansado.
Por diversas razões tinha me atrasado e esperava chegar a Grañon o quanto antes, porque é muito perto de Santo Domingo. Foi quando, de repente, na solidão do Caminho, deparei-me com uma cena insólita.
Há duzentos metros, sem ninguém por testemunha, vi uma velhinha, de seus 80 e tantos anos, toda vestida de preto. Primeiro pensei que era uma alucinação. Depois, quando os meus olhos, teimosos, confirmaram a visão, pensei: "De onde vem e para onde vai uma senhora idosa a essa hora, sozinha, no meio do nada?". Era uma estrada realmente poeirenta. E, aquela hora, muito deserta.
Em meu esgotamento, imaginei: "Deve ser a morte". Relaxei e resolvi me render. "É minha hora!"
A uns três metros, a velhinha me disse: "Estás muito cansado, heim?"
Eu sorri amarelo e respondi: "N-Não, imagine!... Tenho muito o que caminhar ainda..."
"Pois saiba que lhe resta pouco tempo...", disse-me com uma fisionomia muito tranquila.
Depois do engasgo, eu falei: "É meeeeesmo?"
"Sim, para chegar a Grañon..."
"Ahhh, sim". Retruquei, aliviado. "Muito obrigado!"
Bem, não era a morte. Era apenas uma senhora gentil indo visitar alguém no pueblo vizinho.
Mas isso me fez pensar.
Um dos hospitaleiros que me recebeu estava com a mulher desenganada para 15 dias. Câncer de mama. Apesar da situação, ele parecia firme. Não sei se o fato de viver no Caminho de Santiago influía, mas apesar do abatimento, ele estava perfeitamente consolado com iminente morte da companheira de toda a vida. Vi nos seus olhos que ele a amava, quando me confidenciou que ela estava num quarto logo acima, agonizando. Porém, havia nele uma fé, uma compreensão. Apenas o escutei. Vi que não necessitava dizer nada. Somente aprender.
A vida é o que existe de melhor. Devemos cultivá-la, cuidá-la. Viver é excelente. Respirar, correr, sorrir, caminhar, abraçar nossos amigos. Tocar as plantas, afagar os animais e as pessoas. É maravilhoso sentir o hálito puro da terra, que sobe quando a chuva toca o campo. É fantástico enterrar os pés na areia da praia, sentindo como os seus grãos penetram entre nossos dedos, enquando afundamos prazeirozamente. Banhar-se no mar morno da tarde. Por os pés na água gelada de um rio. Reconhecer os infinitos tons da tarde. Contemplar o amanhecer. Observar a abóboda celeste, negra como a opala, mas repleta de pequenos furos luminosos. Como é bom sentir os dentes se cravarem num pêssego suculento. Ouvir o ruído da serra cortanto o pão quente é quase tão delicioso quanto comê-lo. E os aromas... jasmins, rosas, lavanda, manga, orvalho, marisia, alfazema, um livro novo, roupa lavada, grama molhada...
É claro que a fixaçao na morte é algo danoso. Desejá-la e buscá-la é algo mórbido e enfermiço. Mas eu acredito que não era isso que faziam os grandes místicos quando dela falavam. Angelus Silesius, o meu favorito, disse: "Homem, pensa na morte!" Sim, ele estava certo em dizer isso! Quando pensamos na morte, numa perspectiva correta, valorizamos e aproveitamos muito melhor a vida. Tanto a nossa própria quanto a dos outros. Não se trata de adotar atitudes irresponsáveis e delirantes. Trata-se de aproveitar bem aquilo que já temos, bem diante de nós. Cada um já tem a sua própria vida, é preciso apenas aproveitá-la bem.
Pequenos detalhes podem fazer toda a diferença. Se fôssemos morrer amanhã, o que nos custaria ser um pouco mais gentis e amorosos hoje? Um pouco de generosidade e de compreensão em um moribundo caem muito bem! Quem lhe garante que você não é um? Não quero cavar a pré-sepultura de ninguém, mas veja: esta é uma segurança que ninguém possui!
Além do que, nada me parece mais saudável do que reflexão de Mário Quintana, que, sendo um anjo, não tinha porque temer nada. Para ele, a morte era "quando, finalmente, podemos estar deitamos de sapatos..." E para você, o que é?