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Ética e Profissionalismo no Dia-a-Dia

Era uma vez um médico militar que cuidava dos ferimentos dos soldados de seu país. Mas parecia que sempre que curava um soldado este voltava a lutar e acabava sendo morto... até que um dia ele se perguntou: se o destino deles é morrer, por que eu deveria tentar salvá-los? O sentido da vida na profissão é uma questão ética por excelência que C. C. Tsai retrata neste episódio com muita arte.

Para Armstrong, o sentido da vida no ciclismo é fazer de cada obstáculo uma oportunidade. Os médicos o salvaram do câncer, os amigos o salvaram de seu próprio medo, e ele persistiu. O resto é da história do ciclismo e enquanto isso no Tour de France a cada ano se consolidam os padrões éticos dos campeões.

O ritmo das questões éticas que povoam o cotidiano pode ser harmônico como quando Ullrich e Armstrong reciprocamente pararam quando o outro caiu, morro acima, no L’Alpe d’Huez. Mesmo que sob o risco de perder a competição por 61 segundos. Harmônicos são também, segundo Musashi, tanto o ritmo entre a dança e a música nas festas, quanto à linha e as pipas nos céus. E para se alcançar essa harmonia no ritmo dos campeões se exige muita prática.

Um dos ritmos que as pessoas praticam na vida, além de cultivar a terra, atuar no comércio ou na guerra, é o de ser artesão. E este no papel do mestre carpinteiro para ser efetivo precisa dominar habilidades, inerentes à sua profissão, que lhe ajudem a organizar as partes segundo seu uso sejam elas retas ou tortas, fortes ou fracas, com muitos ou poucos nós, além do que precisa manejar com destreza suas próprias ferramentas. Agora estratégico mesmo --como comenta Aguiar sobre o pensamento do Dalai Lama—não é que quando um eremita comete um erro onde a vítima é apenas o próprio e sim quando, por exemplo, um professor comete um erro prejudicando dezenas, centenas ou até milhões de pessoas, como na hipótese de divulgar informações na Internet. Certamente que uma das regras para se estar alerta ao cotidiano ético, quando este surge, é distinguir entre o prejuízo e o benefício em todas as ações humanas, sua dimensão e repercussão. Assim, é que mesmo as simples ações do mestre carpinteiro, quando envolvem orientar terceiros no exercício de tarefas, passam a adquirir uma dimensão ética a diferir radicalmente daquelas do eremita.

Do mesmo modo o profissional do serviço público pode optar pelo desenvolvimento da pesquisa para avançar o estado-da-arte, mediante experimentação, criatividade e inovação. Caiden e Asper y Valdés citando a Lei 9.527 exemplificam desse modo a responsabilidade ética do servidor para com a sociedade ao tornar efetiva a norma legal. Já Cooper, ao se referir aos valores do serviço público, destaca tanto o benefício do servidor de ser aberto e transparente com valores éticos superiores, o que pode ser exemplificado pela metáfora do servidor como um peixe no aquário. Quanto ao sentido da compreensão e da compaixão, a representação da face humana do governo já diz tudo.

E Sabino destaca um ato dessa compaixão em Jesus, segundo o evangelho de João, Jesus ia caminhando com seus discípulos quando ao passarem por um cego, estes perguntaram: – Mestre, de quem é a culpa desse homem ter nascido assim? O pecado foi dele ou de seus pais? E Jesus depois de responder o curou. E para aquele que passava a enxergar, Jesus disse “eu vim para este mundo para fazer com que os que não enxergam passem a enxergar e os que enxergam se tornem cegos. Pois estes não merecem ver ou vêem o que não devem.” E confirmou quando perguntado pelos fariseus. Nós também por acaso somos cegos? Se fossem cegos, não teriam culpa, mas como acham que vêem, então são culpados.

 
Publicado na Etical.org em 24/11/2005
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